UM TAROT PARA A NOVA ERA. O EÃO versus O JULGAMENTO

 

Talvez este seja o Arcano Maior que mais incorporou as doutrinas religiosas católicas. A imagem ilustra o dogma de fé da ressurreição dos mortos, um conceito já presente na tradição hebraica, com várias vertentes que mudaram ao longo dos tempos, embora a Torah (O Pentateuco) literalmente não fale nada ao respeito. A tônica geral de comportamento do povo judeu está inspirada por Maimonides (Rabi Moshe ben Maimon 1135 - 1204) nascido em Córdoba, Espanha, mais tarde médico da família real egípcia. De acordo com sua filosofia, o objetivo do judeu seria viver uma vida plena neste mundo praticando mitzvot (mandamentos ou preceitos), estudando a Torah e fazendo boas ações sem esperar uma recompensa em troca, de modo que a especulação sobre o que pode existir depois da morte não era uma prioridade.

 

 

 

Até agora, isso é apenas uma crença que pode não ter graves repercussões na vida, mas o título da carta, O Julgamento, outro dogma de fé que aconteceria imediatamente após a ressurreição, foi a melhor arma que a Santa Mãe Igreja encontrou para manipular a humanidade. Como com a espada de Dâmocles, nos ameaçaram ser torturados e queimados vivos nas caldeiras do Capeta por toda a eternidade se violássemos em algumas décadas de vida determinados mandamentos. É claro que teríamos que ressuscitar primeiro para ser punidos porque os mortos não sentem nem sofrem.

Essa terrível ameaça não é exclusiva da imaginação católica. Também a encontramos no Islã e, nestes tempos, em que certas crenças e práticas orientais ficaram na moda no Ocidente, nos intimidam com a possibilidade de enfrentar tribunais kármicos, compostos por entidades espirituais, onde vamos pagar nossas transgressões a leis supostamente objetivas e universais definidas por terceiros.

Se engolimos sem questionar esta história sinistra, cujo propósito não é outro senão nos degradar a categoria de ovelhas de um rebanho obediente pastoreado por aqueles que se autoproclamaram como intermediários exclusivos entre a divindade e os seres humanos, é porque nossa infância está saturada de experiências onde, em função das expectativas de nossos pais todo-poderosos, nossas ações foram sistematicamente julgadas com as consequentes recompensas e punições.

Muitas foram as interpretações dadas a esta carta, desde as mais literais, amarradas aos dogmas ou inspirados por eles: Você será julgado (por Deus, por homens ou por você mesmo) e punido por seus erros.

É claro que a ressurreição dos mortos e o julgamento final podem ser lidos em sua essência como "uma consciência que permite ouvir um chamado" (o toque da trombeta) "seja interno ou externo, para elevar-se a uma existência mais significativa ", como sugere Rachel Pollak.

Jodorowsky fala de êxtase, de um renascimento, de um despertar, de uma nova consciência, produto de atender a um chamado imperioso para viver em uma nova dimensão e prevê dificuldades se essa chamada não for respondida. Também como indicação de um problema relativo ao ato de julgar ou ser julgado.

Tanto E. Esquenazi e Sallie Nichols vão mais longe e definem esse chamado como reconexão com a verdadeira vocação, inclusive Sallie define a vocação como a manifestação da libido através de alguma atividade e o túmulo do qual o homem azul sai, seria as masmorras que aprisionam o ser humano quando ele perde a conexão com a energia da libido.

Liz Green em seu Tarot Mitológico, está mais perto da ideia de julgamento, falando de "assumir as consequências de todas as nossas escolhas anteriores, pagando os pecados da nossa inconsciência ou recebendo recompensas pelos esforços empreendidos anteriormente. Um novo começo que surge de concluir um capítulo da vida. "Seria a carta da colheita.

No Tarot Experimental de Sanvado vemos um tribunal constituído em que o réu deve ser o coitado do consultante.

 

 

Crowley e Deva Padme se deslindam das imagens tradicionais. No Osho Zen Tarot, esta carta é chamada "Além da Ilusão" (Veet Pramad em sânscrito) e ilustra, embora, com outras palavras, o que Jung disse: "Quem olha para fora sonha quem olha para dentro desperta". Encontraremos o real dentro, se olharmos para fora, nossa mente cheia de opiniões e julgamentos nos deixará reféns de ilusões. Sugere deixar a mente que opina e interiorizar.

A. Crowley se inspira na Estela da Revelação, uma estela pintada sobre madeira que estava exibida em 1904 no museu do bairro de Boulak no Cairo e a intitula de O Eão, uma medida de tempo usado especialmente em geologia, como a Era Astrológica de 2000 anos. A figura central da carta é uma criança com o dedo na boca dentro do útero azul de Nuit. A. Crowley lhe dá o significado de: As mudanças que acontecem no Cosmos quando passamos de um eão para um outro eão.

 

 

No seu “Livro de Thoth” Crowley não desce a significados mais concretos enquanto que os seus estudiosos falam assim:

"Um chamado para renunciar ao seu ponto de vista estreito e ver as coisas e julgá-las de um nível mais alto”, Gerd Ziegler. “O Tarô. Espelho da alma”.

"Decisão final sobre o passado, nova corrente em relação ao futuro; sempre representa a tomada de um passo definido". Lon Milo DuQuette. “Understanding Aleister Crowley's Thoth Tarot ".

"Romper com hábitos, tradições e dogmas". Johann Heyss. “O Tarô de Thoth”.

                "Transmutação, novo começo, esperança, encontro consigo mesmo, desenvolvimento espiritual" Hajo Banzhaf. “Tarô de Crowley. Palavras-Chave”.

Parece-me que essas interpretações repetem conceitos já vistos em outros arcanos. Deixar a mente que pensa, e ir para dentro, não foi visto na Sacerdotisa? Esta nova consciência que permite um novo ponto de vista não foi alcançada na carta imediatamente anterior: O Sol? A consciência a que o Sol se refere não serve? Na Morte vimos uma transformação dos padrões comportamentais e na Estrela um resgate da percepção produto de eliminar crenças. Será que precisamos passar por este arcano para romper com as tradições?

Podemos chegar a um significado mais específico e útil se considerarmos o Eão como a carta que está entre O Sol: A Consciência e o Universo: A Realização plena ou Síntese final. Muitas vezes percebemos que, embora tenhamos consciência, não a levamos à prática como se houvesse um pequeno sabotador interno. Esse sabotador é o que alguns psicólogos chamam de "criança ferida". Quando deixamos a infância, somos seres geralmente inseguros e carentes emocionalmente, porque não recebemos da família tudo o que precisávamos em termos de amor, aceitação, contato físico e apoio. Uma parte de nós cresce e se torna um adulto que, como não recebeu, não sabe como dar. A criança ferida tem uma enorme necessidade de aceitação e um medo igualmente enorme de enfrentar situações em que sofreu, a partir da qual manipula constantemente o adulto. O adulto pode ficar ciente de que precisa fazer alguma coisa, mas quando vai tomar a iniciativa, a criança vem e passa rasteira. O adulto está ciente de que precisa deixar de fazer alguma coisa e a criança vem por trás e dá um empurrão. É como com a terceira caipirinha. Esta carta ilustra o processo de amadurecimento da pessoa, quando o lado adulto dá atenção e apoio à sua criança que, assim, cresce e se integra com o adulto, deixando de manipulá-lo, de maneira que este possa levar sua consciência à prática. Se a esse amadurecimento o queremos chamar de renascimento...